Têm chegado até mim noticias dos jornais com informações deste de agressões a professores: ‘já lhe parti focinho’*, dizia uma criança de 12 anos, depois de ter agredido o professor de 63 anos, por este e o seu diretor de turma o ter repreendido por ter partido uma lâmpada com uma bola.
Esta é a história contada em quase todos os jornais, mas para mim esta é só parte da história. A minha visão e intervenção sistémica, ‘obrigam-me’ a olhar para o todo e não só para cada uma das partes.
O comportamento desta criança é indiscutível. Não o deverá fazer, ponto. Nenhuma resolução de problemas, no meu ponto de vista, deve ser feita com o uso da agressão. E é aqui que quero chegar.
Quando abri a notícia deste acontecimento, tive curiosidade em ler os comentários à mesma e não fiquei surpreendida; se pudesse contabilizar, diria que mais de 95% dos comentários (de pais, professores e público no geral) exprimiam a sua opinião (tal como estou a fazer neste momento), olhando apenas para uma das partes, a parte da criança e dos seus pais.
Nestes comentários, as acusações foram atribuídas, na sua grande maioria, à falta de educação dada pelos pais [mas digo: não existe falta de educação, mas sim formas diferentes de educar e cada uma com as suas consequências e resultados], e que se ‘estes lhes dessem uns tabefes valentes, não tornaria a fazer o que fez’.
Vamos lá pensar um pouco:
Ninguém sabe se a criança tem pais, ninguém sabe se ela foi educada por eles, ninguém sabe se ela aprenderia a não agredir o professor com uns tabefes valentes dos seus pais, ninguém sabe a relação que esta criança tem consigo mesma, ninguém sabe quanto de amor ela recebeu e recebe, ninguém sabe no fundo a sua história [nem eu!]. Li mais comentários sobre: ‘cortar-lhe as mãos’, ‘proibir-lhe de frequentar a escola e a aula daquele professor’, entre outros.
Eu trabalho há 11 anos com jovens como o do exemplo, que embora quase nenhum tenha agredido fisicamente algum professor antes de entrar na ‘minha’ escola (também já tive casos que sim), todos eles, nalgum momento da sua vida como estudante, já usaram comportamentos agressivos, com os outros, com as coisas e consigo próprios.
Nenhum ser humano nasce agressivo, embora a agressividade esteja dentro de nós. Tanto a agressividade como a generosidade e a assertividade, são comportamentos aprendidos por modelagem. Os pais ou familiares onde a criança nasceu e cresceu têm, obviamente, muita influência, mas todos nós somos educadores. Todos nós podemos ser modelados por alguém simplesmente porque existimos. Um professor numa escola, é um dos principais responsáveis pela educação e mecanismos de modelagem e inconscientemente, são vistos pelas crianças e jovens, uma extensão das figuras parentais.
O que me entristece muito (mas é aqui o foco do meu trabalho e propósito) é ler constantemente, por parte de agentes da comunidade escolar (professores, formadores, diretores de escola...), que a escola não é um local para as crianças aprenderem a serem educados, isso é única e exclusivamente responsabilidade dos seus pais, e que a escola serve para as crianças e jovens aprenderem e instruírem-se [isto é um discurso tão de século passado que até me custa escrever].
Sabem o incrível? Este professor de 63 anos agredido, dava aulas de educação visual e formação cívica (ironia ou não, aconteceu!)
Para além de as responsabilidades caírem sobre a criança (que obviamente deverá reconhecer o seu erro e repará-lo de alguma forma) e sobre os seus pais, as sugestões dadas por quem diz saber sobre educação, rondam todas a agressividade: ‘palmada na hora certa’, ‘castigos’, ‘expulsão’, ‘proibições’, ‘repreensões’, ‘internamento’...
Agora pergunto?:
Se a resposta às agressões, forem com agressões, o que é que esta criança está a aprender? - Aprende que para se resolverem os problemas da vida ‘é só à chapada’.
Mas no fundo é isso que queremos que não aconteça; se não reconhecermos o discurso, bem como os comportamentos que adotamos em situações de crise, propagamos violência e não harmonia e amor.
‘Muitos falam sobre a paz, mas ninguém educa para a paz.’ (Maria Montessori)
Em 11 anos a trabalhar na escola com perfis de jovens semelhantes ao retratado nas notícias (muitos deles ainda mais desafiantes do que esta), nunca tivemos casos de agressões de alunos para com os educadores (professores, formadores, técnicos especializados, auxiliares educativos...), sabem porquê? Porque nós não nos focamos nos comportamentos, mas sim nas pessoas, na sua história, nas suas necessidades e acima de tudo nos seus interesses e potencialidades.
Mudar o foco, muda a nossa energia. Mudar a nossa energia, muda o nosso comportamento e mudar o nosso comportamento, mudam os nossos resultados.
O meu foco como educadora sempre foi descobrir como fui educada e sobre que paradigmas rejo as minhas práticas. Descobri que educar alguém implica PRIMEIRO e OBRIGATORIAMENTE, educar-me e educar-me significa conhecer a linguagem do Amor e do Respeito. Eu cresci a ver a minha família próxima a fazer uso constante das agressões como única via para manter as relações e respeito, daí que desde pequenina percebi que os conceitos de família e relações não eram esses. Por isso, todos os dias me questiono, me reeduco e faço por passar isso para quem quer evoluir numa educação com a base nestes valores – Amor e Respeito.
E engane-se quem acha que educação para/com amor e para a paz, significa ‘deixar as crianças fazerem o que querem’. Não. Nem faço isso com os meus filhos, nem com os meus alunos. Eu olho-os, individualmente como são, e através do meu exemplo e diálogo, encontramos juntos formas de estar na vida e nas relações o mais saudável e ecológica possível.
E engane-se quem acha que estou como defensora desta criança e não deste professor. Não. Nada justifica as agressões. Eu olho cada profissional da educação como ser singular, com a sua história, com o estilo de educação que receberam e reproduziram, com as suas necessidades, com os seus resultados e intenções. Por isso, o meu foco está no acompanhamento próximo dos professores, bem como na formação destes para melhor lidarem com os seus desafios pessoais e profissionais.
Com Amor,
Daniela
EducHeart - Coaching | PNL | Educação Mais Consciente
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*https://www.jn.pt/local/noticias/porto/porto/interior/professor-agredido-a-soco-e-a-pontape-por-aluno-de-12-anos-no-porto-10763571.html?target=conteudo_fechado