segunda-feira, 8 de abril de 2019

Agredi o meu Professor



Têm chegado até mim noticias dos jornais com informações deste de agressões a professores: ‘já lhe parti focinho’*, dizia uma criança de 12 anos, depois de ter agredido o professor de 63 anos, por este e o seu diretor de turma o ter repreendido por ter partido uma lâmpada com uma bola.

Esta é a história contada em quase todos os jornais, mas para mim esta é só parte da história. A minha visão e intervenção sistémica, ‘obrigam-me’ a olhar para o todo e não só para cada uma das partes.
O comportamento desta criança é indiscutível. Não o deverá fazer, ponto.  Nenhuma resolução de problemas, no meu ponto de vista, deve ser feita com o uso da agressão. E é aqui que quero chegar. 

Quando abri a notícia deste acontecimento, tive curiosidade em ler  os comentários à mesma e não fiquei surpreendida; se pudesse contabilizar, diria que mais de 95% dos comentários (de pais, professores e público no geral) exprimiam a sua opinião (tal como estou a fazer neste momento), olhando apenas para uma das partes, a parte da criança e dos seus pais. 
Nestes comentários, as acusações foram atribuídas, na sua grande maioria, à falta de educação dada pelos pais [mas digo: não existe falta de educação, mas sim formas diferentes de educar e cada uma com as suas consequências e resultados], e que se ‘estes lhes dessem uns tabefes valentes, não tornaria a fazer o que fez’. 

Vamos lá pensar um pouco:
Ninguém sabe se a criança tem pais, ninguém sabe se ela foi educada por eles, ninguém sabe se ela aprenderia a não agredir o professor com uns tabefes valentes dos seus pais, ninguém sabe a relação que esta criança tem consigo mesma, ninguém sabe quanto de amor ela recebeu e recebe, ninguém sabe no fundo a sua história [nem eu!]. Li mais comentários sobre: ‘cortar-lhe as mãos’, ‘proibir-lhe de frequentar a escola e a aula daquele professor’, entre outros.

Eu trabalho há 11 anos com jovens como o do exemplo, que embora quase nenhum tenha agredido fisicamente algum professor antes de entrar na ‘minha’ escola (também já tive casos que sim), todos eles, nalgum momento da sua vida como estudante, já usaram comportamentos agressivos, com os outros, com as coisas e consigo próprios.

Nenhum ser humano nasce agressivo, embora a agressividade esteja dentro de nós. Tanto a agressividade como a generosidade e a assertividade, são comportamentos aprendidos por modelagem. Os pais ou familiares onde a criança nasceu e cresceu têm, obviamente, muita influência, mas todos nós somos educadores. Todos nós podemos ser modelados por alguém simplesmente porque existimos. Um professor numa escola, é um dos principais responsáveis pela educação e mecanismos de modelagem e inconscientemente, são vistos pelas crianças e jovens, uma extensão das figuras parentais.

O que me entristece muito (mas é aqui o foco do meu trabalho e propósito) é ler constantemente, por parte de agentes da comunidade escolar (professores, formadores, diretores de escola...), que a escola não é um local para as crianças aprenderem a serem educados, isso é única e exclusivamente responsabilidade dos seus pais, e que a escola serve para as crianças e jovens aprenderem e instruírem-se [isto é um discurso tão de século passado que até me custa escrever]. 

Sabem o incrível? Este professor de 63 anos agredido, dava aulas de educação visual e formação cívica (ironia ou não, aconteceu!)

Para além de as responsabilidades caírem sobre a criança (que obviamente deverá reconhecer o seu erro e repará-lo de alguma forma) e sobre os seus pais, as sugestões dadas por quem diz saber sobre educação, rondam todas a agressividade: ‘palmada na hora certa’, ‘castigos’, ‘expulsão’, ‘proibições’, ‘repreensões’, ‘internamento’...

Agora pergunto?:
Se a resposta às agressões, forem com agressões, o que é que esta criança está a aprender? - Aprende que para se resolverem os problemas da vida ‘é só à chapada’.
Mas no fundo é isso que queremos que não aconteça; se não reconhecermos o discurso, bem como os comportamentos que adotamos em situações de crise, propagamos violência e não harmonia e amor.

‘Muitos falam sobre a paz, mas ninguém educa para a paz.’ (Maria Montessori)

Em 11 anos a trabalhar na escola com perfis de jovens semelhantes ao retratado nas notícias (muitos deles ainda mais desafiantes do que esta), nunca tivemos casos de agressões de alunos para com os educadores (professores, formadores, técnicos especializados, auxiliares educativos...), sabem porquê? Porque nós não nos focamos nos comportamentos, mas sim nas pessoas, na sua história, nas suas necessidades e acima de tudo nos seus interesses e potencialidades.

Mudar o foco, muda a nossa energia. Mudar a nossa energia, muda o nosso comportamento e mudar o nosso comportamento, mudam os nossos resultados.

O meu foco como educadora sempre foi descobrir como fui educada e sobre que paradigmas rejo as minhas práticas. Descobri que educar alguém implica PRIMEIRO e OBRIGATORIAMENTE, educar-me e educar-me significa conhecer a linguagem do Amor e do Respeito. Eu cresci a ver a minha família próxima a fazer uso constante das agressões como única via para manter as relações e respeito, daí que desde pequenina percebi que os conceitos de família e relações não eram esses. Por isso, todos os dias me questiono, me reeduco e faço por passar isso para quem quer evoluir numa educação com a base nestes valores – Amor e Respeito.

E engane-se quem acha que educação para/com amor e para a paz, significa ‘deixar as crianças fazerem o que querem’. Não. Nem faço isso com os meus filhos, nem com os meus alunos. Eu olho-os, individualmente como são, e através do meu exemplo e diálogo, encontramos juntos formas de estar na vida e nas relações o mais saudável e ecológica possível.

E engane-se quem acha que estou como defensora desta criança e não deste professor. Não. Nada justifica as agressões. Eu olho cada profissional da educação como ser singular, com a sua história, com o estilo de educação que receberam e reproduziram, com as suas necessidades, com os seus resultados e intenções. Por isso, o meu foco está no acompanhamento próximo dos professores, bem como na formação destes para melhor lidarem com os seus desafios pessoais e profissionais. 

Com Amor,
Daniela 

EducHeart - Coaching | PNL | Educação Mais Consciente
https://www.facebook.com/relacoesmaisconscientes/










*https://www.jn.pt/local/noticias/porto/porto/interior/professor-agredido-a-soco-e-a-pontape-por-aluno-de-12-anos-no-porto-10763571.html?target=conteudo_fechado

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

“INCLUSÃO” vs RANKINGS E A NOVA FORMA DE AVALIAR AS ESCOLAS


Na semana passada muito se falou sobre a nova forma de avaliação das escolas lançada pelo Ministério da Educação. Infelizmente, tenho lido muitos comentários de pessoas/profissionais de educação que não concordam com esta normativa.

As questões que levantam estão focadas em:
  • facilitismos
  • analfabetismo literário
  • passar quem é burro
  • candidatar-se à faculdade sabendo apenas a tabuada e ainda recorrendo ao livro como apoio
  • passar quem ofende o professor
  • garantir que quem culturalmente não é motivado a aprender nada, estrague a educação de quem realmente quer aprender
  • esta nova avaliação vai dar para perceber as escolas onde não colocar os nossos filhos
  • delinquentes mantidos dentro da sala de aula em nome da ‘inclusão’
  • aulas onde se aprendem uns palavrões e recreios onde se passarão a converter-se ao islão
  • escolas que saberemos onde existem mais emigrantes, e gente de outras religiões e também atrasados mentais...


E paro por aqui, porque não consigo ler mais coisas destas a respeito das crianças e jovens!

O ensino português está ainda longe de ser perfeito, é verdade! Mas haja audácia para iniciar novas estratégias para inverter aquilo que não é de todo um “direito à educação para todos” (segundo a lei de bases do sistema educativo) e aquilo que são os ‘rankings’.

Eu sei do que falo por experiência própria... 
Trabalho num projeto piloto para a redução do abandono precoce de educação e formação que está sediado em Matosinhos. Eu e mais uma equipa fantástica de profissionais da área social, somos diariamente contactados por inúmeras escolas e outras entidades, querendo sinalizar jovens que apresentam um perfil para o nosso projeto (e ressalvo que nestas sinalizações nem sempre se referem a jovens que se encontram em situação de abandono escolar, mas sim jovens que têm vindo a apresentar um absentismo e insucesso escolar elevado). Já nos chegaram algumas vezes, sinalizações de 10/11 jovens de uma mesma escola (isto não será exclusão? Isto não será olhar para os rankings?)

Quando falo em insucesso escolar elevado, refiro-me a crianças/jovens com 5 retenções no 5º ano ou 6/7 retenções entre o 5º e o 6º anos e isto é uma atrocidade. Isto enfurece-me e frustra-me enquanto profissional de educação e enquanto ser humano. O que estamos a ensinar a estas crianças? Quem é que não está a ver esta situação? Quem é que em 5 ou 6 anos letivos ainda não conseguiu entender as verdadeiras necessidades destas crianças e jovens? Que impacto estamos a criar na sua auto-estima, autoconfiança e sucesso pessoal, académica e profissional ?

Nós recebemos diariamente no nosso projeto, jovens espatifados. Descrentes deles próprios. Jovens que não acreditam mais nas escolas, nos professores e criaram muralhas neles próprios, quase intransponíveis.

Quando alegam (nos comentários a esta nova forma de avaliação das escolas), que a educação para todos é deixar passar toda a gente... - Eu digo NÃO! Mas também não digo que reprovar resolva e seja justo!

Uma educação justa (aquela que ainda não é vivida em Portugal), é uma educação que promove os interesses das crianças e jovens, uma educação que olha com ‘olhos de ver/ olhos de detetive’ para as reais necessidades de cada uma delas, para as suas reais motivações, paras as suas reais potencialidades, para os seus reais sonhos e a partir daí serem desenhados um Planos Individuais de Formação que promovam o seu potencial humano (pessoal, social, académico e profissional).

Já há algumas coisas maravilhosas a serem feitas em Portugal e noutros países, vejamos o exemplo da Escola da Ponte, vejamos o trabalho que a Escola de Segunda Oportunidade de Matosinhos faz, vejamos o que os novos projetos Montessori, Waldorf, Reggio Emília estão a fazer... vejamos o ensino na Finlândia, Suécia ou o Projeto Âncora no Brasil.

Há cada vez mais famílias a optarem por integrarem filhos em projetos privados (como alguns destes em cima), não pelas razões apontadas e que recolhi dos comentários à notícia do Secretário de Estado João Costa, mas sim porque acreditam que enquanto o ensino público português não for capaz de integrar todos os aspetos da vida das nossas crianças, estaremos a compactuar com uma educação de massas e a criar indivíduos obedientes, não pensantes, não criativos, não autónomos, competitivos, bla bla bla.. tudo aquilo que é prejudicial para um ingresso autêntico e promissor do mercado de trabalho e na vida em geral.

Estes dias ouvia a Sra. Manuela Moura Guedes no telejornal da SIC referir que o atual governo aniquilou, do antigo governo, um percurso de formação que acha essencial - os Cursos Vocacionais (CV). Esta jornalista é defensora destes cursos, sem tão pouco saber, na realidade, como estes são utilizados/desenvolvidos. 

Ela defende os CV porque acha que nem todos os jovens devem e/ou querem ser doutores e ingressar num curso superior. Na minha opinião, também acho que para termos sucesso na nossa vida, não temos necessariamente que integrar uma licenciatura ou mestrado, doutoramento ou pós-doutoramento, até porque o conceito de sucesso e felicidade é muito subjetivo e muito abrangente.

No entanto, os CV e posteriormente profissionais, nem sempre funcionam (infelizmente) como uma alternativa aos cursos de ensino superior! Uma vez que estes percursos de formação, normalmente, não são selecionados pelos nossos jovens por uma questão de interesse e vocação, e sim por uma questão de imposição e exclusão (“já que não és capaz de acompanhar a turma nem te portas bem, vais para um curso vocacional”) – esta é, a maior parte das vezes, a realidade! 

Por favor não digam às nossas crianças e jovens o que devem escolher ser e fazer... Por favor, ouçam-nas! Vejam-nas! e apoiem-nas a construirem os seus percursos formativos à sua medida!

O que falta ao ensino Português é lembrar-se das investigações que Howard Gardner fez desde 1980 em relação às Inteligências Múltiplas ou de olhar para as investigações e experiências de Maria Montessori entre os anos 30 e 40. 

Quando formos capazes de ver o ser humano na íntegra, com as suas diferentes formas de aprender e as diferentes formas de se ser inteligente, vamos conseguir adequar as nossas práticas pedagógicas favorecendo todos de igual forma e aí sim - dar o verdadeiro direito à educação a todos! 

Estou expectante para o COMO se fará esta nova avaliação (da inclusão)!

As escolas e os profissionais necessitam de ferramentas, necessitam de mais formação, não somente tecnicista, pois nisso, cada um é brilhante. Eu falo antes de uma formação humanista e sistémica, uma formação de desenvolvimento pessoal, uma vez que quando se fala em inclusão, é de desenvolvimento pessoal e humano que estamos a tratar.

O caminho faz-se caminhando! Em vez de instalarmos o medo e as críticas, instalemos oportunidades, compromissos éticos e cooperação!

💙🙏


segunda-feira, 16 de maio de 2016

Como me tornar num educador de quem podes confiar?

Confiança e Segurança, andam de mãos dadas!
Quando cuidamos de nós (educadores), da nossa auto confiança, estamos a um passo de conseguir construir relações, também elas de confiança. 
Todas as crianças e jovens (diria que adultos também), procuram no outro e na relação, a verdade. Verdade não é perfeição. Verdade é autenticidade, congruência, respeito, segurança, presença.

Quando presto atenção e reconheço as minhas necessidades, e aqui posso falar em descanso, espaço, nutrição, silêncio, dançar, dormir, um abraço, ser reconhecida, de ter mais informação/conhecimento, segurança, etc... Estou mais capaz de as alimentar ou de as solicitar a alguém e assim estar mais completa e feliz. 
Se me sinto completa e feliz, estou bem comigo e estou bem para estar em relação.

Trabalhar com jovens em risco, que têm inúmeras necessidades básicas por nutrir, ensinou-me que o caminho iniciava em mim, uma vez que não estando nutrida, iria ser desafiante conseguir nutrir o outro. Mais ainda... seria um desafio e uma incongruência indiscutível poder dizer ao outro como se conseguir nutrir, se eu não sabia como fazer comigo.

É neste caminho de alimentação das minhas necessidades, do respeito por mim mesma, da congruência nas atitudes, emoções e pensamentos, que faz com que o outro olhe para mim com confiança e segurança, pois vêm verdade e equilibro.

Quando sou autêntica e estou equilibrada, mais facilmente consigo praticar o igual valor e eles/elas percebem e sentem isso! Como saberá? Observe como se relaciona consigo mesm@ diariamente e como estão as suas relações!

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Formas de me conectar melhor com os meus educandos


Quem acompanha os meus posts, sabe que para mim a conexão é a forma chave para uma relação saudável entre o educador e educando, seja ele criança, jovem ou adulto.

A proposta que apresento aqui, tem a ver com a minha aprendizagem pessoal enquanto educadora. 
Educar é uma arte! Toda a arte tem um esboço e na educação, o esboço somos nós!
Nesse sentido, para mim, conectar-me com o outro implica eu saber como me conectar comigo mesma, com a minha criança, com a minha jovem e agora com a minha adulta 'interior'.

Organizei 5 formas de como criar conexão, ressalvando que isto funciona para mim e é meramente uma proposta que quero partilhar.

1- Quem sou eu? ('Assumo a responsabilidade')

Estar em relação é uma poderosa ferramenta de autoconhecimento. No entanto, nem sempre é um processo consciente para todas as pessoas. 
Quando me sentia atacada, ameaçada, frustrada, triste, amedrontada, incapaz, insegura... na relação que estabelecia com os meus jovens, percebi que necessitava de iniciar um processo de desenvolvimento pessoal e social. Não queria e não aceitava viver em efeito, e Inquieta como sou, questionava-me constantemente sobre as razões que me levavam a sentir o que sentia e a fazer o que fazia.

Porque sinto aquilo que sinto? Como faço aquilo que faço? Como penso, sinto e desejo? Que resultados estou a obter na minha relação com os outros? Como me vejo enquanto educadora? Que crenças trago comigo acerca de mim mesma que prejudicam ou beneficiam a minha relação com o outro? Como me relaciono com os meus medos, angústias, frustrações, desejos, raiva, ódio, prazer,...? Como lido com os ganhos e as perdas? Como defino objetivos? Como alcanço os meus sonhos? Como programo os meus dias e o meu trabalho? Como percebo as minhas necessidades? Sei definir os meus limites? Como costumo partilhar isto com os outros? No fundo, que tipo de exemplo quero ser?

Só começando a responder a estas questões é que estava preparada para ajudar os jovens a colocá-las a si próprios e a encontrarem as suas respostas. 
Ter esta consciência coloca-nos em causa e acima de tudo, a assumir a responsabilidade pelas nossas emoções, pensamentos e ações, evitando as projeções e culpas sobre o outro e o mundo.


2- Quem és tu? ('Tens Interesse e igual valor para mim')

Para criar conexão com alguém, é necessário termos um interesse genuíno por essa pessoa, por quem ela é e não pelo que ela faz. Ligar-me a alguém é querer conhecer-lhe os sonhos, os desejos, os objetivos, os seus pensamentos, as suas emoções. É querer conhecê-la sem filtros, estereótipos, julgamentos. Conhecer alguém é permitir criar espaço para que a curiosidade e a aceitação apareçam verdadeiramente. 
"...se uma pessoa é aceite, plenamente aceite, e nesta aceitação não há nenhum julgamento, apenas compaixão e solidariedade, o indivíduo está apto a abraçar-se a si mesmo, a desenvolver a coragem de abandonar as suas defesas e encarar o seu eu verdadeiro." (Carl Rogers) 

Interessar-me verdadeiramente por quem é este/a aluno/a, implica levar o meu foco para o que está no interior dele/a e não para o que é exteriorizado, não para aquilo que me parece ser, não para o que me faz lembrar... Focar apenas no exterior é um caminho para o julgamento, para as avaliações, interpretações... E isso constituirá uma barreira a uma comunicação saudável e por conseguinte à conexão. 

Cada criança e jovem é um ser único, com a sua história, com as suas emoções, com os seus sonhos, com pensamentos próprios, com medos, com anseios, com necessidades e potencialidades, logo, não há comparação possível com outra criança e jovem. Ver um/a aluno/a na íntegra e com autenticidade, cria espaço para que ele/ela se sinta visto/a, respeitado/a, seguro/a para se abrir e partilhar a sua essência. 

"(...) Quando nos aproximamos de uma pessoa, percebemos os seus pensamentos, as suas emoções, os seus sentimentos, ela torna-se não só compreensível mas boa e desejavel."(Carl Rogers)

Exemplos disso podem ser:

"Professora, já leu o texto que escrevi?"

Uma opção de reação/resposta pode ser:
- "Muito bem! Gosto. Podes escrever mais!"

Outro opção e a que cria verdadeira conexão será: 
- "Foste mesmo tu que escreveste? Quando escreveste isto? O que te levou a escrever sobre este assunto? É o teu primeiro texto ou tens mais? Gostas de escrever? Como te sentes quando escreves? Vou gostar muito que partilhes os teus textos comigo, sim?"

Neste último exemplo, afasto-me do exterior, do texto e volto-me/interesso-me verdadeiramente pelo mundo interno do/a aluno/a.

3- Presença e Fazer coisas juntos ('Estou aqui e quero estar contigo')

Parar o que estamos a fazer, olhar o/a aluno/a, ouvir com os ouvidos e o corpo todo, significa que ele/ela é importante para nós, que tem igual valor. Ele/ela sentir-se-à reconhecido/a, amado/a e aceite, o que ajuda a desenvolver a autoconfiança e uma boa autoestima.

Estar presente é um conceito bem amplo, implica que o professor seja um verdadeiro educador e salte de dentro da sala de aula para dentro dos contextos onde as crianças e jovens se encontram (recreio, bar, cantina, biblioteca, coração, pensamentos...).
Estar presente é um desafio... É necessário que eu responda com sinceridade, se 'quero estar presente e se quero fazer coisas contigo?' 

Convido todos os educadores a brincarem no recreio com as crianças e jovens, convido a vestirem o equipamento e jogarem à bola, nadar juntos, dançar, fazer música, pintar juntos, conversar, almoçar, apenas permanecer em silêncio, meditar juntos, apanhar sol... Talvez possam descobrir um prazer na educação que há muito não sentiam.

Lembrem-se - estejam presentes, sem julgamentos.. Estejam em conexão com curiosidade, aceitação e explorem o vosso ser com eles. Evitam colocar ou definir regras de jogo... Eles sabem fazer isso melhor do que ninguém. Respeitem o espaço deles/delas com serenidade e confiem na relação.

Por vezes a nossa presença e vontade de fazer coisas juntos pode estar em pequenos momentos ou em pequenos gestos:
- Bom dia! , Boa tarde!
- Como te sentes hoje?
- Como foi a aula para ti?
- Se precisares de ajuda, eu estou aqui e posso ajudar-te
- Como foi o fim de semana? Aprendeste alguma coisa nova?
- Apetece-me jogar Ping Pong, quem quer jogar comigo?
- Vou estar aqui a organizar o espaço do bar, queres juntar-te a mim?
- Queres vir comigo à papelaria. Acho que vou precisar de ajuda.
- Tambem me apetece pintar. Queres a minha companhia? 

4- Aprender a questionar ('O que sei sobre ti, sei porque tu me disseste')

Às vezes como educadores, achamos que por sermos os adultos e por sinal os 'mais experientes', tendemos a sugestionar, a dar conselhos e partilhar coisas como sendo 'verdades absolutas'. 
Não somos detentores de verdades absolutas nenhumas.. Perguntaria: 'Verdades absolutas, como assim? comparado com o quê? Quem disse isso?...'. 
Usar a comunicação desta forma é não praticar o igual valor... É achar que eu sei mais do que o outro (na verdade, posso saber algumas coisas, mas tem a ver com a minha experiência e pode não se aplicar ao outro. Tal como necessitei de experienciar para criar a minha verdade, o outro talvez também necessite de viver para criar a sua verdade).

O meu convite é saber questionar em vez de dar palpite/juízos de valor/avaliações... Exemplo: 
- Observo que estás mais silencioso que o habitual. O que se passa? Como te sentes? O que pensas sobre isso? Se não acreditasses nisso, em que é que acreitarias? O que te faz pensar assim? O que te levou a ter aquela atitude? O que achas que o outro sentiu? O que poderias ter feito de diferente? Como pensas resolver isso? 

Às vezes eles imploram pela nossa opinião. Já tive jovens a dizer: 'Stora, a sério, se fosse a professora no meu lugar o que fazia? É que eu não sei!' Eu por norma devolvo: 'O que é que achas que eu faria no teu lugar?'. Esta minha resposta nem sempre resulta porque devolvem com um: 'não sei.' 
No entanto, eu poderia correr o risco de dizer o que faria no lugar dele/dela, mas prefiro sempre devolver em perguntas: 'O que te diz o coração? O que gostavas que acontecesse? Se não estivesses confuso, que decisão tomarias? O que te está a fazer duvidar?' (e por aí fora...)

Evitar os palpites e as sugestões, é devolver o poder com às crianças e jovens. É ajudar a construir autoconfiança e promover uma relação/conexão saudável, onde a abertura e a segurança estão muito presentes.

5 - Autenticidade ('Sou o que tu vês e não tenho medo de o partilhar contigo')

Se conseguires praticar o 1' e 4' pontos, a autenticidade já está presente.
Ser autêntico na relação com o outro, é mostrar-se, é ser pessoa na relação sem capas. É poder mostrar as minhas emoções, é ter espaço para também errar, é ter espaço para partilhar os meus limites e revelar as minhas necessidades. É poder ser sem me julgar por isso, ou seja, poder ser abalando uma eventual crença de que o professor tem de ser alguém perfeito, ou então de que ser professor é ensinar e não mostrar quem sou, ou ainda, ser autêntico aproxima-me demasiado dos alunos e não quero mostrar as minhas fraquezas porque se não perco credibilidade.

Se formos autênticos na relação que estabelecemos com o outro, estamos a ter respeito por nós mesmos e ensinamos às crianças e jovens que na autenticidade está a verdade, o respeito, a credibilidade, e por sua vez um 'Posso confiar em ti e posso me ligar a ti'. Valores muito importantes para o seu desenvolvimento.


sexta-feira, 15 de abril de 2016

Quando crio espaço a relação acontece

O termo 'criar espaço' foi para mim, uma das principais descobertas enquanto educadora. 
Sempre me considerei uma pessoa empática, interessada pelo outro, uma ouvinte presente, mas ao longo dos 2 primeiros anos deparei-me que falava pouco de mim aos meus alunos e isso estava a construir barreiras na minha relação com eles.

Descobri que existia uma parte de mim que estava a reproduzir os modelos de professor/educador que tinha conhecido.
Percebi que estava a estabelecer uma relação hierárquica, escondida atrás de uma aparente relação horizontal e democrática onde se praticava o igual valor.

Quando refiro, falar um 'pouco de mim', não quer dizer que tenha de passar a falar 'tudo de mim'. 
Percebi que praticar o Igual Valor, é um valor que quero construir na relação com os meus educandos e agora também com o meu filho.

Falar de mim, começou por ser uma tarefa desafiante, pois temia e acreditava principalmente em:
- se me exponho, perco o respeito
- estou aqui para ensinar e não para falar da minha vida
- o que eu sou e vivi não é assim tão interessante que mereça ser partilhado
- falar de mim aproxima-me demasiado dos alunos e depois não será fácil colocar limites

Percebi que não falar de mim, alimentava a minha necessidade de segurança e controlo, ou seja, necessidade de ser respeitada, fazer o que tinha a fazer e esconder-me atrás das minhas imperfeições, medos, pensamentos e emoções. No entanto, isso nem sempre me aproximava e facilitava a minha relação com os jovens e por conseguinte, essa forma não me fazia sentir feliz e acima de tudo não estava a conseguir obter o feedback desejado.

O meu papel na escola era sobretudo investigadora... Alguém que se senta com os jovens e questiona o que esses pensam, sentem, como foi o processo deles de formação e vida, como está a ser no presente, quais os planos para futuro, entre outras coisas. E foi num desses momentos em que percebi que algo estava a ser insuficiente, quando um jovem me faz a seguinte observação: 'Porque é que eu te hei-de contar a minha vida, se tu também não me contas a tua?!'.

Aquela observação, aquela verdade, aquele momento, foi sem dúvida a resposta que eu precisava de ouvir para alterar a minha percepção sobre Conexão e sobre Igual Valor.

De facto, quem era eu para 'invadir' a vida do outro se eu também não permita e não gostava que invadissem a minha? Quem era eu para recolher toda aquela informação se não abria espaço para partilhar um pouco da minha?! De que me servia a história deles se passava todo o tempo a esconder a minha?! Que direito tinha eu de lhes perguntar sobre os seus pensamentos e emoções se eu própria fugia dos meus?! Como é que eu achava que ia recolher informação autêntica se eu era uma estranha para eles?! Com que direito?!

Nesse momento, alterei a minha forma de estar na profissão e principalmente na relação. Percebi que a melhor forma de educar é pelo exemplo, pelo igual valor, pela verdade, pela partilha, pelo amor. Porque eu percebi que eles eram pessoas como eu (que estranho que isto me soa agora), com infância, adolescência, com medos, com alegrias, com frustrações, com mil e uma histórias para contar, com ódio, raiva, pensamentos negativos e autodestrutivos, com falhas e imperfeições, com qualidades e competências incríveis... 

Quando comecei a praticar igual valor, permitiu-me aprender e crescer com eles e permitiu que através do meu exemplo e forma como eu resolvia os meus obstáculos, resultasse na maior e melhor fonte de aprendizagem deles. 

Criar espaço, cria a relação! 

❤️

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Quando vejo as tuas necessidades

Hoje sem nenhuma razão aparente, recordei com saudade duas professoras do ciclo, nomeadamente do 8' e 9' anos. Uma de Matemática, a prof. Margarida e a outra de Ciências Naturais, que não me recordo do seu nome, mas sim do brilho do seu sorriso, do poder das suas gargalhadas e da energia que transbordava.
Sempre me considerei uma aluna mediana, daquelas que necessitavam de estudar e trabalhar para obter os resultados altos na escala estabelecida do nosso sistema de educação.
Hoje quero recordá-las, pois tiveram um enorme impacto na minha educação, mas principalmente na minha auto-estima e auto-confiança.
O meu 7'ano, foi, para mim, o mais desafiante. O ano em que senti mais dificuldades, menos conexão com a escola, estudos, desconectada comigo mesma... Ano em que a minha nota mais alta foi um 4 a Educação Visual e ano em que tirei a minha primeira e ultima negativa numa pauta final.
Sentia-me triste, desencorajada, pouco confiante e por vezes até senti que era 'burra'. Hoje isto parece ter pouca relevância, no entanto uma criança com 12 anos não percebe isso. 
Ano letivo em que não me senti apoiada pela escola e principalmente pelos professores. Era mais uma aluna.. Era mais uma nota.. Era mais um resultado.. Mas para mim, eu era única, era 'aquela nota', era 'aquele resultado', era 'aquele sentimento'...

Hoje quero falar destas duas professoras, porque elas, de uma forma consciente ou inconsciente perceberam que eu tinha uma grande necessidade de conexão e reconhecimento e sem eu entender a razão, sentia-me muito feliz e motivada em frequentar a escola, as aulas... Eu sorria, eu divertia-me, eu ajudava os outros, eu queria estar ali. 
Os meus níveis de satisfação, interesse, motivação, curiosidade, criatividade, alegria e relação com a comunidade educativa e a escola, subiram exponencialmente, e acima de tudo, criei uma nova crença e perspectiva de mim mesma: 'eu sou capaz'.

Acreditando hoje que as provas não provam nada, quero contudo partilhar que essas duas professoras permitiram-me terminar o 9' ano, depois das provas globais, com seis 5's e quatro 4's na pauta final, de uma forma prazerosa e sem esforço.

E se elas não me tivessem visto? E se elas não se tivessem conectado comigo? E se elas não sorrissem e fossem animadas? E se elas não tivessem disponibilizado o seu tempo com presença para mim? E se...? Estaria aqui hoje a escrever este texto?

Existem várias necessidades observáveis através do comportamento humano e quando alimentadas, cada ser humano será mais capaz de escalar uma montanha.

Segundo a pirâmide das necessidades básicas de Maslow, é apenas no topo que encontramos a necessidade de obter conhecimento; por conseguinte, aquilo que a escola pretende dar, incutir e 'obrigar' o aluno a atingir é o saber, esquecendo-se que as crianças e jovens são como as casas... Não se constroem pelo telhado.

Na minha prática diária com jovens e jovens-adultos em risco, utilizo esta diferenciação de necessidades básicas* que me ajudam a perceber melhor cada um e assim conseguir adequar a minha intervenção de uma forma mais eficaz e pessoal:
- necessidade de Conexão e Pertença
- necessidade de Conhecimento e Segurança 
- necessidade de Importância e Reconhecimento
- necessidade de Experiência e Novidade

Por isso, questiono-lhe: 'E se conseguisse perceber as reais necessidades dos seus alunos? E se descobrisse também as suas reais necessidades? Que resultados gostaria de atingir dentro da sua sala de aula e como se sentiria com isso?'.

São a estas e a outras questões que ajudo a 'responder' quando acompanho educadores e professores. Se quer saber como, envie e-mail para danielaflaranjeira@gmail.com ou acompanhe e contacte-me através da minha página do facebook Relações Mais Conscientes.

❤️

* (necessidades básicas segundo modelo Laser de Pedro Vieira, master trainner LifeTraining)

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Ser professor, psicólogo, assistente social e educador social

Ouço muitas vezes professores verbalizarem que se sentem cansados e angustiados por terem mil e uma funções que não só ensinar: são psicólogos, assistentes sociais, educadores sociais...
Evidentemente que existindo nas escolas mais professores do que técnicos psicossociais, as necessidades mantém-se e o elemento de 'referencia' dos alunos é na sua maioria o professor.

De facto não se pode exigir de um professor que seja psicólogo, assistente social ou educador social, até porque 'não têm' as bases teorias para exercer tal função, nem tão pouco se pode exigir a estes que facilitem uma sessão de matemática, biologia...

Contudo acredito numa coisa: por detrás destas designações fictícias que nos indicam quem somos (Prof. ou Drs.), acima de tudo somos pessoas que lidam com outras pessoas.
Somos pessoas com necessidades, interesses, limitações, potencialidades, tal como aqueles a quem designamos por alunos.

Como pessoas que somos, somos corpo, mente e emoção. 
Recordo-me de ter ido 'trabalhar' muitas vezes triste, angustiada, cansada, desanimada e ao mesmo tempo também eufórica, feliz, motivada, enérgica, criativa... E isso refletia-se na minha performance profissional (aquilo que sou capaz de fazer tendo em conta o meu estado emocional).
Assumir que eu tenho este direito de sentir o que sinto, os outros também o têm (alunos, colegas de trabalho, funcionários...)

A questão que se coloca é: 'Como vamos gerir sentires diferentes e performances diferentes?'

Eu posso responder com outra questão: queres lidar com a diferença? Queres educar ou instruir? O que significa para ti tais designações?
Esse é o desafio! Definir a tua verdadeira intenção! Distanciar-me ou Relacionar-me?

No início das minhas funções enquanto educadora social o meu foco estava em 'fazer as coisas bem' e isto significava para mim que os alunos me compreendessem, ouvissem e cumprissem com as atividades que eu tinha definido, até porque muitas vezes tinha 'perdido' horas na noite anterior a preparar as sessões. E sabem: nem sempre as coisas corriam da forma 'certa' (aquela definida por mim).

Até que percebi que as coisas não funcionavam por pelo menos dois factores evidentes: o meu estado emocional não era o mais apropriado para estar a desenvolver aquela atividade e depois nem sempre o que propunha fazia sentido para os meus jovens.

Aí entendi uma coisa: partilhar como me sinto e perguntar-lhes como se sentem, fazia com que mais facilmente entrássemos em negociações e estabelecíamos uma relação em que a base era o respeito e a flexibilidade. Decidi não impor o meu mapa aos outros!

Isto parece não fazer conexão com o início deste texto, porém, pergunto: quantas vezes queremos impor o nosso mapa, as nossas expectativas, os nossos objetivos e tudo o que os jovens ou crianças precisam naquele preciso momento é partilhar uma história, um acontecimento, um sentimento, um problema, ou seja, precisam de um psicólogo, de um assistente social ou educador social...

No fundo, muitas vezes só precisam de uns ouvidos e de um olhar presente e verdadeiro.

Quantas vezes estamos disponíveis a ouvir alguém que não nos ouviu antes? Eu pessoalmente mostro algumas resistências a quem não esteve presente comigo antes. Com eles, os alunos, passa-se o mesmo.

Se os alunos não mostram interesse pelas coisas que queremos oferecer, podemos fazer várias coisas:
- perguntar o que se passa (ouvi-los)
- partilhar os objetivos da sessão
- mostrar flexibilidade, apresentando várias formas de atingir os mesmos objetivos e dar a escolher
- perguntar a ti mesm@ quanto do que preparaste, necessita de ser desenvolvido na sessão para te sentires bem
- o que estás dispost@ a abdicar
- partilhar como te sentes e como te sentirás se 'x' for cumprido
- querer criar relação ou não querer.

É respondendo a algumas destas questões que perceberás a tua verdadeira intenção!

Se a tua intenção é educar, negociar, escutar ativamente, ser flexível... Mas o teu estado emocional no momento não te permitiria estar totalmente presente, podes simplesmente partilhar:

'Sei o quanto é importante para ti partilhares todas essas coisas comigo, e eu quero muito ouvir-te, no entanto, eu estou a sentir-me cansada e muito ocupada e quando te ouvir quero estar presente. Como te sentes se falarmos mais tarde?' (Esta atitude, releva respeito pelo teu mapa e pelo mapa do outro e cumpres na mesma a tua intenção inicial como educador e tudo o que isso significa pra ti).

Agora vai e investe em boas partilhas com claras intenções pra ti!